Blog do Centro de Formação da Vila

Chegar a Montevidéu antes mesmo de embarcar. A experiência literária como etapa inicial da viagem pedagógica.

Escrito por Centro de Formação da Vila | 4 de Maio de 2026

 

Ser outro sem deixar de ser si mesmo. Deixar-se dissolver em outras identidades. Ampliar o próprio mundo, questioná-lo, conhecer a si mesmo e ao outro - mesmo que seja um outro feito de palavras.

Frases como essas, tão presentes em nossos documentos curriculares, descrevem algo que os educadores proporcionam aos estudantes, mas nem sempre vivem com a mesma intensidade: a experiência literária, em sua dimensão íntima, desestabilizadora, formadora.

Às vésperas de embarcar em uma viagem pedagógica para o Uruguai e a Argentina, optamos por fazer algo que nos pareceu, ao mesmo tempo, simples e essencial: visitar esses países pela ficção, antes de chegar a eles fisicamente; entrar em contato com uma voz argentina narrativa, transitando entre Buenos Aires e Montevidéu; viver uma experiência artística comum, que pudesse ser o ponto de partida do nosso percurso de convivência e estudos.

Uma narrativa, dois países, um percurso invertido

Escolhemos um romance contemporâneo — uma narrativa que nos colocasse em contato com o universal e o particular ao mesmo tempo. Universal nos temas: o amadurecimento, as ambições, os desejos, os sonhos e as contradições que marcam a vida adulta. Particular no espaço: o romance se passa exatamente nos territórios que íamos percorrer.

Lucas, o protagonista, sai de Buenos Aires em direção a Montevidéu — fazendo o percurso contrário ao nosso. Cruza o Rio da Prata movido por ambições, desejos e inquietações. Nós íamos na direção oposta. Havia algo de espelhado nessa escolha. Lendo o percurso de Lucas, éramos, à nossa maneira, protagonistas de uma travessia que ainda não havíamos começado.

O espaço como elemento da narrativa — e como experiência vivida

O espaço pode estar entre os elementos centrais das narrativas e da construção de personagens. Os lugares que um autor escolhe não são criados de forma ingênua: cumprem funções, carregam significados, condicionam os personagens e interferem na construção da trama.

No romance que lemos, os espaços de Montevidéu têm alta densidade narrativa. O hotel onde Lucas se instala, a rua que aprende a tomar como referência para se localizar pela cidade, o bar onde um encontro decisivo acontece, a praia onde se passa a cena que marca um ponto de reviravolta na narrativa: cada um desses cenários cumpre uma função na construção do personagem e na progressão da história.

À medida que lemos, projetamos mentalmente ruas que ainda não conhecíamos, construímos imagens de uma cidade que nos aguardava. E então a viagem aconteceu — e o que era imagem se tornou presença. Reunimo-nos em frente ao hotel que o personagem reservou, percorremos ruas que ele percorreu. Vimos o Rio da Prata de um lado e do outro.

A experiência de ler antes de ver criou uma camada de significado que dificilmente se produz de outra forma. Os espaços reais chegaram habitados — já tinham história, já tinham personagem, já tinham afeto. Fotografamos com outros olhos. Caminhamos com outras perguntas.

A discussão literária: o espírito da comunidade de leitores

Nos reunimos em uma cafeteria do centro histórico de Montevidéu para discutir o livro. Trocamos impressões sobre Lucas, sobre suas escolhas, sobre o que o movia e o que o detinha. Relemos trechos em voz alta. Confrontamos interpretações e pontos de vista. Ficamos surpresos com leituras que não havíamos feito — e que, depois de ouvidas, pareciam tão coerentes. Revimos ou reafirmamos posições. A experiência de cada um foi enriquecida pela contribuição do outro, configurando o espírito de uma comunidade de leitores — e, não por acaso, refletindo também o espírito do grupo.

Vivemos, na prática, o que buscamos proporcionar aos nossos alunos e alunas. Sentimos como é estar diante de um texto que nos move e ter que articular, em palavras, por que ele nos move. E, ante o exercício de alteridade a que a leitura nos convocou, saímos daquela cafeteria sabemos mais sobre nós mesmos e sobre os outros.

Lucas, personagem e companheiro de viagem

Ao final da viagem, Lucas não era mais apenas um personagem de romance. Era uma referência comum, a quem sentimos conhecer bastante bem. Mencionado em conversas, lembrado diante de um espaço que o romance havia descrito, citado em momentos de descontração.

O educador que viveu uma experiência literária de verdade, que discutiu um livro com colegas em uma cafeteria, que chegou a uma cidade nova com um personagem na memória, volta para a sala de aula com algo valioso: a memória da literatura vivida no âmbito íntimo e pessoal, mas também em sua dimensão socializadora.