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Formar pessoas ou transformar o mundo? A educação como prática de agência transformativa

Escrito por Centro de Formação da Vila | 27 de Maio de 2026

 

Formar pessoas ou transformar o mundo? A educação como prática de agência transformativa

Por Mauritz Gregorio de Vries

Quando pensamos no papel da escola, é comum nos depararmos com uma pergunta que parece exigir uma escolha: devemos formar indivíduos preparados para o mundo ou engajar os estudantes na transformação da realidade? Essa dicotomia, no entanto, é falsa. A educação não se divide entre formar pessoas ou mudar o mundo — essas duas dimensões são inseparáveis. É precisamente nas maneiras como nos engajamos na transformação do mundo que formamos a nós mesmos.

Para compreender melhor essa ideia, podemos olhar para uma obra de arte: Cucendo la vela (Costurando a vela), do pintor espanhol Joaquín Sorolla y Bastida, de 1896. A pintura retrata um grupo de pessoas trabalhando coletivamente na confecção de uma vela de barco, possivelmente destinada à pesca. À primeira vista, vemos apenas um momento de trabalho manual. Mas essa cena nos convida a refletir sobre um conceito fundamental que vem ganhando força no campo educacional: a agência.

A partir das contribuições da pesquisadora Anna Stetsenko, podemos entender que os seres humanos estão constantemente produzindo as condições que permitem sua própria existência. Esse processo é coletivo, mediado por ferramentas culturais — instrumentos físicos, linguagem, formas de organização social — que foram desenvolvidas ao longo da história e são sempre orientadas por um motivo.

Na dinâmica da agência, o mundo vai sendo transformado e produzido mas, simultaneamente, são transformadas e produzidas as identidades, habilidades, conhecimentos e emoções das pessoas envolvidas. Agimos transformando o mundo para criá-lo e, ao criá-lo, produzimos a nós mesmos.

Voltando à pintura de Sorolla: aquele coletivo não está apenas fabricando uma vela. Estão criando condições materiais para a pesca, para a subsistência, para a continuidade da vida. Ao mesmo tempo, cada pessoa ali está desenvolvendo habilidades manuais, mobilizando conhecimentos prévios sobre navegação e costura, estabelecendo relações interpessoais, vivenciando emoções compartilhadas. Tudo isso está sendo mobilizado e transformado ao mesmo tempo — não é possível isolar um aspecto do outro.

O mundo agora é diferente: haverá mais velas nas paisagens marítimas, a capacidade de pesca aumentou, novas possibilidades se abrem. E as pessoas também são outras: seus corpos conhecem novos gestos, suas mentes carregam novos saberes, suas relações foram reconfiguradas.

É importante destacar que essa agência é sempre mediada culturalmente. A produção da vela demanda conhecimento acumulado, artefatos materiais como linha e agulha, formas de planejamento e divisão do trabalho. Todas essas ferramentas — físicas e simbólicas — foram desenvolvidas por gerações anteriores e estão sendo reinterpretadas e transformadas naquela atividade específica. O passado não está isolado nessa relação: ele fornece os recursos culturais que usamos no presente para construir futuros. Mas esses recursos não são estáticos. Cada vez que usamos uma ferramenta, uma palavra, um modo de organização, estamos também o recriando, adaptando, transformando.

A produção da vela é orientada para um futuro incerto. Existe uma concepção do que será criado, mas o resultado será único. As pescas futuras podem ter mais ou menos sucesso, dependendo de inúmeros fatores. Não há garantias de que a vela trará exatamente os resultados esperados. Mas é muito mais provável que o futuro desejado (alimento, renda, continuidade da vida) seja alcançado com a produção da vela do que sem ela. A agência não promete certezas, mas amplia possibilidades.

A aparente harmonia da cena pintada não deve nos iludir. Todo processo de produção envolve tensões: internas ao coletivo e externas, com outras instâncias hierárquicas. Tempo, materiais, espaço, condições ambientais — todos são recursos limitados que precisam ser gerenciados. Entender a agência transformativa implica também identificar o que impede a produção do futuro desejado: políticas econômicas, estruturas de poder na comunidade, na cidade, no país, no mundo. Não basta saber o que fazer; é fundamental compreender o que, quem e como nos impede de fazer.

O que tudo isso tem a ver com a escola e com a educação de nossos estudantes?

Quando produzimos um currículo, quando definimos as atividades nas quais os estudantes vão se engajar, não estamos apenas "ensinando conteúdos". Estamos participando da produção de suas identidades, habilidades, conhecimentos, emoções, visões de mundo. Há uma agência sempre sendo transformada e produzida em cada processo de intervenção sobre o mundo.

Isso significa que a qualidade do que é proposto na escola é vital para o desenvolvimento de pessoas e coletivos capazes de produzir e transformar um mundo que permita nossa existência — não apenas individual, mas coletiva.

As atividades educativas ricas que oferecemos não devem ser vistas como momentos de "aplicação da agência", como se os estudantes fossem apenas exercitar algo que já possuem. Ao contrário: são essas atividades que produzem agências. Definir motivos significativos, selecionar ferramentas culturais, organizar agrupamentos, estabelecer divisões de trabalho, criar regras — todas essas são decisões curriculares que impactam tanto nos resultados imediatos das atividades quanto nas agências que estão sendo formadas.

Formar pessoas e transformar o mundo

Voltamos, então, à questão inicial: a escola deve formar indivíduos ou transformar o mundo?

Não há como fazer um sem o outro. Quando engajamos estudantes em atividades significativas de transformação do mundo — seja produzindo conhecimento sobre suas comunidades, criando soluções para problemas reais, construindo projetos coletivos —, estamos necessariamente formando suas capacidades, suas identidades, seus valores.

E quando trabalhamos intencionalmente para desenvolver habilidades, conhecimentos e disposições nos estudantes, estamos necessariamente os preparando para intervir no mundo, para compreender suas tensões e possibilidades, para identificar o que impede futuros mais justos e sustentáveis.

A escola que assume a perspectiva agentiva compreende que não há neutralidade: toda decisão curricular é também uma decisão sobre que pessoas queremos formar e que mundo queremos construir. E, principalmente, reconhece que essas duas dimensões são uma só.

O curso “Ciências da Natureza: ensinar para transformar”. Quando o conhecimento se encontra com os problemas contemporâneos” aprofunda essas ideias, por meio de reflexão teórica e análise de exemplos de propostas desenvolvidas na Escola da Vila. Acesse o site para mais informações.

Referências:

[1] Stetsenko, A. (2017). The Transformative Mind: Expanding Vygotsky's Approach to Development and Education. Cambridge University Press.