O projeto de formação de leitores no ambiente escolar depende, de forma decisiva, da figura do professor como mediador qualificado. Mas o que, afinal, significa mediar a leitura literária com qualidade? Basta gostar de livros e incentivar os alunos a ler? Ou é preciso ir além do entusiasmo pessoal?
Para exercer esse papel com excelência, o professor precisa ser, ele próprio, um leitor atento e sensível, capaz de reconhecer a arquitetura das obras e o engenho criativo dos autores. Ler literariamente é perceber as escolhas que não estão à vista imediata: o ritmo das frases, a organização do tempo narrativo, a construção das personagens, o uso de símbolos, silêncios e repetições. Que efeitos essas decisões produzem no leitor? Como elas orientam nossas emoções, julgamentos e interpretações?
Pensemos, por exemplo, em Matilda, de Roald Dahl. Desde as primeiras páginas, o narrador constrói uma atmosfera que ativa códigos muito claros de admiração e repulsa: somos levados a simpatizar com Matilda e a rejeitar seus pais quase sem perceber. Como isso acontece? Que recursos narrativos produzem esse alinhamento afetivo? O exagero caricatural, o humor ácido, a ironia do narrador — tudo conspira para que o leitor “tome partido”. De que maneira essa tomada de posição impacta a leitura? E como um mediador pode explorar esses efeitos em uma conversa literária com os alunos?
Ao compreender a arquitetura literária, o professor passa a identificar o convite específico que cada livro faz ao leitor. Muitas obras possuem uma estrutura intrínseca que, de certo modo, “ensina a ler”¹: funcionam como uma “escada com corrimão”², oferecendo apoios para que o leitor avance em sua experiência interpretativa. Reconhecer esses mecanismos é fundamental para a tomada de decisões curriculares e para o planejamento de mediações que possam ir além de atividades genéricas — resumos, fichas ou desenhos que serviriam para qualquer história — e se concentrem em propostas que dialoguem com a singularidade de cada obra. O que este livro pede do leitor? Que tipo de atenção, de sensibilidade ou de inferência ele exige?
Questões como essas serão discutidas no curso online Livros que ensinam a ler. A competência interpretativa na formação do leitor, ministrado por Felipe Munita. Ao longo de quatro encontros, os participantes se debruçarão sobre a arquitetura das obras literárias, analisarão o convite que fazem, discutirão as aprendizagens que oportunizam e refletirão sobre o impacto dessas construções na qualidade da mediação.
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¹ MUNITA, Felipe. Eu, mediador(a): mediação e formação de leitores. Tradução de Dolores Prades. 1. ed. Lauro de Freitas, BA: Solisluna; São Paulo: Selo Emília, 2024.
² Idem.