Em muitas aulas de Matemática, há movimento. Os alunos copiam, resolvem exercícios, acompanham explicações, levantam a mão, respondem perguntas. À primeira vista, tudo indica que a aula está funcionando.
Mas, se olharmos com mais atenção, surge uma dúvida incômoda: quanto desse tempo é, de fato, dedicado ao pensamento?
Estar ocupado não é o mesmo que estar pensando. Resolver uma sequência de exercícios pode significar apenas aplicar procedimentos já conhecidos, sem necessariamente compreender o que está sendo feito. Do mesmo modo, acompanhar uma explicação não garante que o aluno esteja construindo sentido — muitas vezes, ele está apenas seguindo um raciocínio que não é seu.
Essa diferença, embora sutil, é decisiva.
Nos últimos anos, essa questão tem sido amplamente discutida por pesquisadores da educação matemática. No livro Construindo salas de aula que pensam em Matemática, Peter Liljedahl parte justamente dessa provocação: por quanto tempo, de fato, os alunos estão pensando durante as aulas? A partir dessa pergunta, o autor sistematiza um conjunto de práticas que deslocam o foco da aula — da explicação do professor para a atividade intelectual dos estudantes.
Promover esse tipo de ambiente, no entanto, não depende apenas de adotar novas estratégias isoladas. Passa por um conjunto de decisões que o professor toma o tempo todo: o tipo de tarefa que propõe, a forma como organiza os alunos, o modo como apresenta um problema, as perguntas que faz, o tempo que sustenta uma discussão, as intervenções que realiza — e também aquelas que decide não fazer.
Nesse processo, o papel do professor se transforma. De alguém que transmite e explica, para alguém que cria condições, observa, interpreta e intervém com intencionalidade. E isso exige um conhecimento que vai além do domínio do conteúdo.
É preciso desenvolver um olhar que permita antecipar estratégias dos alunos, reconhecer diferentes caminhos possíveis, identificar dificuldades que não são imediatamente visíveis e decidir, em tempo real, como agir para manter o pensamento em movimento.
Também implica olhar para o conteúdo matemático de outra forma: não apenas como uma sequência de tópicos, mas como um campo de ideias que pode ser explorado, representado, conectado e aprofundado. Quando isso acontece, a aula deixa de ser uma sucessão de explicações e exercícios e passa a ser um espaço de investigação.
Criar esse tipo de ambiente não acontece por acaso. É resultado de prática, reflexão e, principalmente, de experiências que permitam ao professor vivenciar outras formas de ensinar e aprender Matemática.
É justamente nessa direção que se insere o curso Salas de aula que pensam e conhecimento especializado do professor: uma relação imbricada, parte da Programação de Inverno 2026 do Centro de Formação da Vila .
Ao longo de dois dias de formação presencial, a proposta é mergulhar nessas questões a partir da prática: vivenciando tarefas, analisando estratégias de condução da aula e aprofundando o conhecimento matemático e pedagógico que sustenta decisões mais qualificadas em sala.
Mais do que discutir o tema, trata-se de experimentar, refletir e construir novos caminhos possíveis — para que o pensamento dos alunos deixe de ser algo eventual e passe a ocupar o centro da aula.
Acesse o site do Centro de Formação para saber mais sobre a proposta do curso.