Quando os alunos parecem ocupados, mas não estão pensando
Por Brenda Reche, Juliana Barreiro, Mariana Kauffman
Em muitas aulas de Matemática, há movimento. Os alunos copiam, resolvem exercícios, acompanham explicações, levantam a mão, respondem perguntas. À primeira vista, tudo indica que a aula está funcionando.
Mas, se olharmos com mais atenção, surge uma dúvida incômoda: quanto desse tempo é, de fato, dedicado ao pensamento?
Estar ocupado não é o mesmo que estar pensando. Resolver uma sequência de exercícios pode significar apenas aplicar procedimentos já conhecidos, sem necessariamente compreender o que está sendo feito. Do mesmo modo, acompanhar uma explicação não garante que o aluno esteja construindo sentido — muitas vezes, ele está apenas seguindo um raciocínio que não é seu.
Essa diferença, embora sutil, é decisiva.
Nos últimos anos, essa questão tem sido amplamente discutida por pesquisadores da educação matemática. No livro Construindo salas de aula que pensam em Matemática, Peter Liljedahl parte justamente dessa provocação: por quanto tempo, de fato, os alunos estão pensando durante as aulas? A partir dessa pergunta, o autor sistematiza um conjunto de práticas que deslocam o foco da aula — da explicação do professor para a atividade intelectual dos estudantes.
Promover esse tipo de ambiente, no entanto, não depende apenas de adotar novas estratégias isoladas. Passa por um conjunto de decisões que o professor toma o tempo todo: o tipo de tarefa que propõe, a forma como organiza os alunos, o modo como apresenta um problema, as perguntas que faz, o tempo que sustenta uma discussão, as intervenções que realiza — e também aquelas que decide não fazer.
Nesse processo, o papel do professor se transforma. De alguém que transmite e explica, para alguém que cria condições, observa, interpreta e intervém com intencionalidade. E isso exige um conhecimento que vai além do domínio do conteúdo.
É preciso desenvolver um olhar que permita antecipar estratégias dos alunos, reconhecer diferentes caminhos possíveis, identificar dificuldades que não são imediatamente visíveis e decidir, em tempo real, como agir para manter o pensamento em movimento.
Também implica olhar para o conteúdo matemático de outra forma: não apenas como uma sequência de tópicos, mas como um campo de ideias que pode ser explorado, representado, conectado e aprofundado. Quando isso acontece, a aula deixa de ser uma sucessão de explicações e exercícios e passa a ser um espaço de investigação.
Criar esse tipo de ambiente não acontece por acaso. É resultado de prática, reflexão e, principalmente, de experiências que permitam ao professor vivenciar outras formas de ensinar e aprender Matemática.
É justamente nessa direção que se insere o curso Salas de aula que pensam e conhecimento especializado do professor: uma relação imbricada, parte da Programação de Inverno 2026 do Centro de Formação da Vila .
Ao longo de dois dias de formação presencial, a proposta é mergulhar nessas questões a partir da prática: vivenciando tarefas, analisando estratégias de condução da aula e aprofundando o conhecimento matemático e pedagógico que sustenta decisões mais qualificadas em sala.
Mais do que discutir o tema, trata-se de experimentar, refletir e construir novos caminhos possíveis — para que o pensamento dos alunos deixe de ser algo eventual e passe a ocupar o centro da aula.
Acesse o site do Centro de Formação para saber mais sobre a proposta do curso.
