Educação digital na arte: os múltiplos olhares propostos pela exposição "O Mundo Através da IA"
por Helena A. Mendonça
A Inteligência Artificial se apresenta como uma tecnologia mágica, imaterial e inevitável, uma nuvem abstrata flutuando acima da história e da natureza. É precisamente essa ilusão que a exposição "O Mundo Através da IA" (Le Monde selon l'IA), em cartaz no Sesc 24 de Maio, em São Paulo, se propõe a desmontar.
Com curadoria geral do pesquisador e professor Antonio Somaini (da Sorbonne e de Harvard), a mostra reúne cerca de 70 obras, produzidas por 29 artistas oriundos de 15 países, divididas em oito núcleos temáticos.
Concebida originalmente pelo centro de arte Jeu de Paume, em Paris, a exposição ganhou uma versão brasileira, que inclui sete "Cápsulas do Tempo" exclusivas dedicadas a reconstituir as raízes históricas, poéticas e políticas da tecnologia no Brasil.
Para a comunidade escolar, a exposição pode funcionar como um laboratório interdisciplinar. Ela nos convida a fazer perguntas como: ”O que os sistemas de Inteligência Artificial carregam em sua arquitetura e o que eles preferem ocultar?”, “Como a arte pode nos ajudar a encontrar caminhos para interações saudáveis com as tecnologias digitais?”, “Como podemos priorizar a sustentabilidade considerando o envolvimento com essas tecnologias?”.
Para responder a essas e a outras questões, destaco os trabalhos das pesquisadoras e artistas Kate Crawford e Giselle Beiguelman, cujas intervenções oferecem chaves de leitura importantes para o letramento digital crítico nas escolas.
Kate Crawford e a Geografia Oculta da Inteligência Artificial
Quando uma pessoa aciona um assistente de voz com uma pergunta do tipo "Como está o tempo hoje?", o que realmente acontece nos bastidores? A resposta a essa pergunta é o ponto de partida do trabalho de Kate Crawford, pesquisadora australiana que assina duas das instalações mais impactantes da mostra, ambas em parceria com o artista sérvio Vladan Joler.
Em Anatomia de um Sistema de IA: O Amazon Echo como um mapa anatômico do trabalho humano, dos dados e dos recursos planetários (2018), Crawford e Joler desenham um minucioso mapa do assistente de voz "Alexa", da Amazon. A obra demonstra visualmente que a resposta instantânea dada pelo dispositivo depende de uma vasta rede planetária estruturada em três grandes eixos de extração e exploração:
- Recursos Materiais e Geológicos: a mineração de terras raras, lítio, petróleo e o consumo massivo de água e energia para resfriar e alimentar centros de dados.
- Trabalho Humano Invisível: milhões de trabalhadores de dados do Sul Global submetidos a condições precárias para rotular imagens, transcrever áudios e moderar conteúdos violentos.
- Extração de Dados: a apropriação contínua de dados pessoais e comportamentais da população para treinamento de modelos corporativos.

Expandindo essa reflexão para uma escala histórica de longa duração, Crawford e Joler apresentam também a obra de maior dimensão física da exposição: Calculando Impérios: uma Genealogia da Tecnologia e do Poder desde 1500 (2023). Trata-se de um painel gráfico de 12 metros de largura que mapeia cinco séculos de história (de 1500 até 2025). Ele articula a evolução das tecnologias de comunicação, cálculo e automação com o colonialismo, a militarização, as redes de controle e a administração imperial da vida.

Como levar esse tema para a sala de aula? O trabalho de Kate Crawford desconstrói a ideia de que a IA é somente algoritmo e código. Ela oferece aos professores de Geografia, História, Sociologia e Ciências uma ferramenta visual poderosa para discutir geopolítica, extrativismo mineral, justiça ambiental e as novas formas de divisão internacional do trabalho no século XXI.
Giselle Beiguelman: a Floresta Algorítmica e o Lixo Eletrônico
A contribuição da artista e professora brasileira Giselle Beiguelman na exposição conecta a urgência ecológica contemporânea com a formação social brasileira. Beiguelman participa da mostra tanto com obras autorais de destaque quanto na curadoria de uma das Cápsulas do Tempo.
Na instalação Beleza Corrosiva (2025), a artista utiliza projeções em grande escala combinadas com vídeos gerados por modelos de IA generativa (como o Sora) e pilhas de lixo eletrônico. A obra cria cenários distópicos de um futuro provável onde rios são tomados por computadores e placas-mãe descartadas, enquanto a vegetação tenta germinar entre escombros tecnológicos.
A obra contrapõe a beleza estética do vídeo generativo com a degradação ambiental, invocando a noção surrealista de ‘Beleza Convulsiva’, de André Breton, ao avesso para denunciar o custo ecológico da aceleração digital.

Em Botannica Tirannica (2022) e na série Flora Mutandis, Beiguelman investiga como o preconceito e o imperialismo foram codificados na própria ciência.
Ao examinar a taxonomia botânica clássica, a artista evidencia como cientistas europeus batizaram plantas com nomes científicos e populares eugenistas, misóginos e racistas. Utilizando redes neurais (Style GAN2), Beiguelman cruza essas espécies para gerar plantas híbridas e inventar novas nomenclaturas que desestabilizam essa herança colonial, mostrando como os dados do passado continuam a alimentar os vieses dos algoritmos atuais.

Como levar esse tema para a sala de aula? As obras de Giselle Beiguelman são um ponto de partida interessante para professores de Biologia, História, Artes e Filosofia. Elas permitem debater como a ciência não é neutra, como a linguagem molda nossa percepção do mundo e de que maneira os preconceitos históricos do arquivo humano são herdados e multiplicados pelos algoritmos de Inteligência Artificial.
Do Microtrabalho às Raízes da Arte Computacional no Brasil
Além dos trabalhos de Crawford e Beiguelman, a exposição "O Mundo Através da IA" oferece muitas outras possibilidades pedagógicas que merecem destaque no planejamento docente:
- A Invisibilidade do Microtrabalho: a seção voltada ao microtrabalho apresenta obras como Acapulco (de Bruno Moreschi e Pedro Gallego) e Meta Office: Por Trás das Telas da Amazon Mechanical Turks, que expõem as rotinas e a precarização dos clickworkers do Sul Global. O próprio nome da plataforma da Amazon resgata o mito do "Turco Mecânico" do século XVIII — um autômato falso que fingia jogar xadrez sozinho, mas escondia um enxadrista humano em seu interior.
- A Materialidade da Nuvem: esculturas como as de Julian Charrière (feitas de placas-mãe e processadores derretidos em forno) e fotografias de Marcela Magno sobre as minas de lítio na América Latina ajudam os estudantes a visualizar o impacto físico, hídrico e energético dos grandes data centers.
- A História Brasileira do Código e da Automação: as Cápsulas do Tempo resgatam marcos históricos pioneiros do Brasil, como as primeiras experiências de arte computacional de Waldemar Cordeiro nos anos 1960/1970, o sistema de notação de movimento Nota-Anna (1973) de Analívia Cordeiro, a poesia concreta e algorítmica de Wlademir Dias-Pino e os escritos visionários do filósofo Vilém Flusser.

Visitar a exposição com professores e estudantes é uma oportunidade de transformar um tema frequentemente tratado de forma abstrata em uma experiência sensorial, crítica e profundamente formadora.
A mostra explicita que debater a Inteligência Artificial não significa apenas discutir recursos de chat, robôs ou linhas de código, mas sim examinar as relações de poder, o trabalho humano, a ecologia e a memória coletiva que moldam nossa sociedade.
Exposição: O Mundo Através da IA (Le Monde selon l'IA)
Curadoria: Antonio Somaini
Local: Sesc 24 de Maio — Rua 24 de Maio, 109, República, São Paulo/SP (próximo à estação República do Metrô)
Período: De 6 de agosto a 29 de novembro de 2026
Horários: Terça a sábado, das 9h às 21h; domingos e feriados, das 9h às 18h
Entrada: Gratuita
Mais informações: https://www.sescsp.org.br/editorial/o-mundo-atraves-da-ia-2/
Na escrita desse texto, foi usado o Gemini Notebook para a organização de anotações e fotos das visitas à exposição. O recurso apoiou a escrita ao estabelecer relações entre as fontes utilizadas, além de ampliar as informações sobre as obras.
Resgatando a ideia da primeira frase do texto de Helena Mendonça:
A Inteligência Artificial se apresenta como uma tecnologia mágica, imaterial e inevitável, uma nuvem abstrata flutuando acima da história e da natureza. É precisamente essa ilusão que a exposição O Mundo Através da IA se propõe a desmontar.
Desmontada essa ilusão, a arte e a inteligência artificial nos convidam a repensar os processos de criação, as relações entre tecnologia e sociedade e o papel da criatividade em um mundo cada vez mais mediado por novas tecnologias.
Afinal, como criamos? Mobilizando referências e estabelecendo relações? Imaginando o que ainda não existe? Experimentando caminhos e buscando respostas para questionamentos e soluções para problemas? Como se desenvolvem esses processos? O que faz de uma criação algo verdadeiramente inventivo?
Tais questões ganham ainda mais relevância em um cenário em que a inteligência artificial também participa da produção de imagens, textos, músicas e outras manifestações criativas. Compreender as relações entre criatividade, invenção e tecnologia torna-se, portanto, fundamental para refletir sobre as possibilidades e os limites dessas novas ferramentas, sem perder de vista o papel da imaginação e da experiência humana.
O encontro - Criatividade e arte na era da IA - com Dora Kaufman e Rosa Iavelberg - inspirado no livro Tecnologias da Invenção: Inteligência Artificial, Criatividade e Arte, de Dora Kaufman e Giselle Beiguelman, é um convite para pensarmos juntos sobre essas questões.

