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Umberto Eco descreve a literatura como um bosque (1): um território denso, cheio de trilhas possíveis, pontos de luz inesperados, caminhos que se bifurcam e clareiras que só aparecem a quem se permite avançar. Entrar nesse bosque é sempre uma aventura — e, para o leitor iniciante, é também um gesto de coragem. Surge então a primeira pergunta essencial: Como apoiar a entrada das crianças nesse espaço tão vasto, preservando sua liberdade de explorar e descobrir? É nesse ponto que a mediação de leitura revela toda a sua potência.

A mediação tem sido compreendida, cada vez mais, como uma prática profissional que articula conhecimento literário, intencionalidade pedagógica e sensibilidade na relação com os leitores. Mediar não é apenas ler em voz alta ou conduzir conversas sobre livros: trata-se de organizar experiências estéticas, criar condições de recepção e sustentar processos de construção de sentido. Convocam-se, assim,  outras indagações fundamentais: Como selecionar os livros para a leitura compartilhada? Como criar um clima que favoreça a entrada das crianças na experiência literária?

Nessa perspectiva, o mediador assume um papel que é decisivo, mas jamais controlador. Ele não define a rota “certa”, mas acompanha os primeiros passos, oferecendo acolhimento, escuta, boas perguntas e uma escolha criteriosa de obras que ampliem repertórios e façam vibrar sensibilidades. Sua ação não instrumentaliza a literatura: ao contrário, afirma sua dimensão estética, ética e simbólica da experiência literária. Sendo assim, preparar-se para mediar implica ler previamente, estudar a obra, observar sua arquitetura narrativa, antecipar tensões e construir, com cuidado, um espaço de aprendizagens e apreciação no encontro com o texto.

A roda de conversa sobre livros é um dos momentos de maior densidade na mediação. Longe de ser troca espontânea, a situação exige intencionalidade e reflexão: Como garantir a participação de cada uma das crianças? Como articular a reflexão pessoal com a construção coletiva que ocorre na roda? Como acompanhar as aprendizagens que se constroem nesse espaço? Ao organizar tempos, encorajar a escuta, acolher diferentes modos de participar e estimular a argumentação, o mediador cria uma comunidade interpretativa que legitima tanto a singularidade das experiências quanto a construção compartilhada de sentidos.

Essas interações marcam profundamente a autoimagem leitora das crianças. Quando suas impressões são valorizadas, quando suas hipóteses são escutadas e quando percebem que suas leituras dialogam com as dos colegas, elas passam a se ver como leitoras competentes, autorizadas e participantes de uma comunidade de leitores. Essa percepção não nasce por acaso: ela é construída nas práticas cotidianas.

Ao mesmo tempo, a articulação entre leitura compartilhada e leitura autônoma revela-se fundamental. A leitura compartilhada oferece suporte interpretativo, dá acesso a obras mais complexas e cria um clima estético que desperta envolvimento. Já a leitura autônoma convida à experimentação, ao exercício da escolha e à construção de vínculos pessoais com os livros. Quando essas duas dimensões dialogam, produzem sinergias potentes: o vivido coletivamente sustenta a experiência autônoma e pessoal, enquanto as descobertas individuais enriquecem o que é compartilhado.

A mediação, assim, combina técnica e sensibilidade. Requer estudo e planejamento, mas também abertura ao inesperado. Quando realizada com intencionalidade e cuidado, permite que cada criança entre no bosque da ficção com olhos atentos, espírito curioso e a segurança de que sempre haverá novas trilhas a serem descobertas - trilhas que, pouco a pouco, poderá percorrer com crescente autonomia e imaginação.

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Mediação de leitura: construção de  conhecimento literário e formação do hábito leitor

parte da Programação de Verão do Centro de Formação da Vila.

 

 (1): ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.